Mundo

Relacionamento a três 25/07/2017 10:03 Fonte: G1/RO

Como relacionamentos poliamorosos estão quebrando tabus no mundo todo

Oficialização de união de três homens na Colômbia reacende discussão: os casamentos entre mais de duas pessoas têm futuro?

Manuel José Bermúdez Andrade, Víctor Hugo Prada e Alejandro Rodríguez fizeram história. Eles tiveram oficializada - em seu país, a Colômbia - a primeira união de três homens no mundo.

O reconhecimento inédito de seu relacionamento a três — um autoproclamado "trisal" — levanta a questão: será que veremos casamentos entre três pessoas no futuro?

A história deles mostra que o caminho ainda tem obstáculos.

Os três estavam, na verdade, em um relacionamento a quatro até 2014, que incluía Alex Esnéider Zabala, morto de câncer naquele ano.

"Tomamos a decisão de nos casar antes de Alex morrer. Inicialmente seria uma união entre quatro pessoas", diz Prada, que á ator e ativista gay. "Alex teve um câncer que mudou nossos planos, mas nunca desistimos."

"Fomos atrás do documento porque estamos juntos há muito tempo. É um 'trisal'...convivemos, vivemos, compartilhamos casa, cama, leito...tudo", disse Prada à rádio colombiana Caracol.

Eles contaram à mídia colombiana que encaminharam os documentos pedindo a oficialização da união a três cartórios.

"Quinze dias depois eu voltei", relatou Prada. "No primeiro, me disseram que não tiveram tempo de ler a papelada. No segundo, disseram que a pessoa encarregada saiu de férias, e no terceiro, onde achava que seria mais difícil, o tabelião, um senhor de aparência mais conservadora, nos disse que o documento foi aprovado."

Eles agora planejam fazer uma festa de casamento. Pelo menos em teoria, a formalização da união garante os mesmos direitos de um casal, mas ainda não está claro se ela não será contestada de alguma forma, pois, como na maioria dos países ocidentais, a Constituição prevê que casamentos sejam entre apenas duas pessoas.

Mas a empreitada de Alejandro, Manuel e Víctor pode ser um passo em direção à aceitação oficial de relacionamentos poliafetivos?

"Se ativistas decidirem se esforçar nesse sentido, o movimento com certeza tem potencial para se desenvolver", diz Hadar Aviram, professora de direito da Universidade da Califórnia, nos EUA.

O que é um relacionamento poliafetivo?

Aviram diz que, quando começou sua pesquisa, em 2004, encontrou pouca disposição para o casamento entre grupos poliafetivo, mas a situação começou a mudar por volta de 2012.

Naquele ano, um estudo feito pela organização americana Loving More descobriu que 66% dos adeptos do poliamor questionados gostariam de se casar com várias pessoas se esse tipo de arranjo fosse permitido. Mais de 4 mil pessoas foram entrevistadas.

No mesmo ano, uma tabeliã oficializou uma união estável entre um homem e duas mulheres no interior de São Paulo. Em 2015, três homens na Tailândia tiveram uma cerimônia de casamento budista.

Aviram diz que a mudança pode estar ligada a uma maior aceitação de casamentos entre pessoas do mesmo sexo no mundo, abrindo caminhos para que novos tabus sejam quebrados.

"Talvez nos anos 1970 o casamento homoafetivo fosse tão inacreditável quando o casamento em grupo é hoje", diz ela.

'Senti que era a coisa certa'

Casamento legal pode ainda estar distante, mas casos como o do "trisal" da Colômbia estão dando esperanças para outras pessoas em relações a três.

"É muito animador", diz a americana DeAnna Rivas, que é casada e tem dois filhos. Ela sugeriu ao marido, Manny, que os dois começassem a experimentar um relacionamento com outra mulher em 2014.

"Eu cresci me sentindo atraída tanto por homens quanto por mulheres", ela diz. "Mas quando me casei com Manny eu já estava com ele havia cinco anos e nosso relacionamento era baseado somente em nós dois."

Mas depois do nascimento do segundo filho do casal, DeAnna estava lidando com uma depressão e sentiu que não estava conseguindo ter apoio emocional suficiente apenas do marido.

"Eu estava tão infeliz que não conseguia expressar meus sentimentos por ele. Havia outra parte de mim que estava faltando", diz ela. "Quando nós conhecemos Melissa, eu simplesmente senti que era a coisa certa."

DeAnna, que é professora de artes, hoje vive com Manny e Melissa James, de 20 anos. Eles dividem a mesma cama e os salários, a criação das crianças e as tarefas domésticas.

"É a fantasia da maioria dos homens ter duas mulheres", diz Manny, que é vendedor de barcos.

"Ao mesmo tempo, quando começamos, foi meio intimidador. Eu tinha um pouco de medo de trazer outra pessoa para o nosso relacionamento. Achei que talvez ela roubasse minha mulher de mim. Mas dei uma chance e funcionou melhor do que eu esperava."

Manny, 30, diz que algumas pessoas ficam incomodadas com o relacionamento dos três — um ex-chefe até ameaçou despedi-lo por causa disso —, enquanto outras ficam intrigadas.

"A maioria das pessoas imediatamente pensa em poligamia e mórmons quando fica sabendo [do relacionamento], e eles não gostam da ideia de um cara com duas mulheres que não interagem. Quando digo que foi uma ideia mais da minha mulher do que minha, as pessoas ficam mais compreensivas."

O trio admite que teve de lidar com ciúmes, mas os três acabaram aprendendo a ser mais abertos uns com os outros.

Eles agora planejam uma festa de casamento para junho de 2020.

"Eu queria algo bem bonito e casual", diz Melissa, que é vendedora. "Com uma treliça coberta com flores e decoração nas cores do arco-íris."

Eles até já escolheram o terno que Manny vai usar na cerimônia.

O casamento, no entanto, não terá efeito legal. Eles precisam achar alguma forma alternativa de ter a família reconhecida. Manny e Deanna estão compartilhando a guarda de seus filhos com Melissa. As crianças já a chamam de "Mamãe MJ". Ela também está planejando mudar seu nome para Rivas.

Mas sem os direitos estabelecidos pelo casamento, mesmo as pessoas mais comprometidas com seus relacionamentos poliafetivos não têm acesso aos mesmos benefícios legais de casais oficialmente casados.

'Não há nada de errado nisso'

A ideia do casamento poliafetivo tem provocado reações, especialmente na Colômbia, que é um país profundamente católico. Houve pedidos para que o cartório de Medellín que oficializou o relacionamento dos três homens seja investigado.

Existem temores de que o poliamor possa ameaçar a família ou a instituição casamento.

Alguns ativistas de direitos LGBT também se opõem à ideia, dizendo que ela faz troça de sua briga por igualdade e dá a ideia de que a aprovação do casamento homoafetivo seria o primeiro passo para "desandar" a instituição.

Até entre pessoas poliafetivas algumas são céticas em relação ao casamento — muitos não têm o desejo de tornar públicos seus relacionamentos ou adotar modelos familiares tradicionais, segundo a professora Aviram.

Segundo ela, se houver mudanças, antes será necessário que haja mais exemplos para mostrar que relacionamentos poliafetivos podem ser duradouros.

Manny Rivas diz que adoraria poder se casar legalmente. "Quero mostrar que não há nada de errado nisso, mostrar que dá para fazer dar certo. Nós poderíamos ajudar outras pessoas a atingir seus objetivos, nos tornarmos uma inspiração."

Colaborou Natalio Cosoy, correspondente da BBC na Colômbia


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