Política

Brasil 12/09/2017 12:43 Fonte: g1.globo

O plenário do STF deverá julgar amanhã se o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deve ser declarado suspeito

O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) deverá julgar amanhã se o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deve ser declarado suspeito para atuar no caso que envolve a delação da JBS e o empresário Joesley Batista.


Embora seja improvável que Janot perca o direito de atuar na causa, a cada dia surgem novos elementos que desacreditam seu trabalho no caso – como um encontro informal com o advogado de Joesley Pierpaolo Bottini num boteco de Brasíla no fim de semana (foto). A maior dúvida é se ele era informado das tratativas entre o ex-procurador Marcello Miller e os delatores da JBS.


Está comprovado que Miller já atuava para a JBS antes de ser desligado oficialmente da Procuradoria Geral da República (PGR), no último dia 5 de abril. Desde pelo menos 14 de fevereiro, a advogada Esther Flesch, sócia do escritório em que Miller depois trabalharia, trocava e-mails com ele sobre o caso. Em março, enviou-lhe uma minuta de contrato com a JBS para apreciação.


Em depoimento prestado à PGR, o próprio Joesley reconheceu ter recebido Miller em casa, segundo ele no início de março. Também informou que ele foi pelo menos duas vezes à sede da JBS no mesmo mês. Nada disso compromete Janot diretamente.


Mas o delator da JBS Francisco de Assis e Silva revelou outra informação que exige explicação da PGR. Ele afirmou ter encontrado o chefe de gabinete de Janot, Eduardo Pelella, cinco dias antes da gravação da conversa entre Joesley e o presidente Michel Temer no Palácio do Jaburu. Se a gravação foi feita sob orientação da PGR, mas sem aval de um juiz, ela perde validade como prova.


Silva disse também que iniciou as tratativas da delação no final de fevereiro. Revelou ainda ter mantido mais de três contatos com a PGR antes de 27 de março, data do início oficial da delação. A informação contradiz a manifestação de Janot, segundo a qual, antes dessa data, “nenhum dos atuais colaboradores, direta ou indiretamente, haviam buscado tratativas com a PGR para iniciar negociação”. Ao jornal Folha de S.Paulo, a PGR informou que esse é o “marco temporal” das negociações, pois foi quando  os delatores apresentaram os áudios. “Antes disso, considera-se sondagem dos advogados”, diz.


Há, enfim, a questão principal. No áudio de sua conversa de quase quatro horas com Joesley, gravada em 17 de março, fica evidente que o delator Ricardo Saud submetia a Miller os relatos que preparava para os anexos da delação – “mais de onze páginas”, diz ele a certa altura. Em seu depoimento, Joesley afirmou que “nunca recebeu orientação de Miller sobre elaboração dos anexos nem sobre a produção de uma prova específica”. Disse que as conversas com Miller apenas o orientaram de modo abstrato sobre a colaboração.


É uma versão que entra em choque com o áudio, onde ele estimula Saud todo o tempo a usar Miller como caminho para “chegar no Janot”. “Marcello é do MPF”, afirma. E faz referência a ele como ponte com Janot, Pellela e outro procurador cujo nome é incapaz de lembrar. Saud afirma que, depois da PGR, Janot trabalharia no mesmo escritório que Miller e um terceiro procurador, de nome “Christian” ou “Adrian”. Ele depois negou saber disso.


Quase perto do final da “conversa de bêbados”, Saud revela que Miller informava todas as tratativas sobre a delação, inclusive as propostas de anexos, a um “amigo comum” que tinha com Janot. Repete a afirmação várias vezes até Joesley concluir em seu estilo peculiar: “Então o Marcello vai lá no banheiro e passa pro Janot!”.


Joesley tenta o tempo todo dissuadir Saud de que haja algo “combinado” entre ele e a PGR. Afirma apenas que ele “tem a pretensão” de ler a mente das outras pessoas. Mesmo assim, é obrigação dos procuradores investigar quem seria esse tal “amigo comum” – caso que Janot, por óbvio, não teria independência para apurar.


No depoimento prestado antes de ser preso, Joesley afirmou ter novos áudios de gravações com políticos, que não entregou na delação por não julgar comprometedores. Também disse ter falado com vários deles sobre como deter a Operação Lava Jato.


O ministro do STF Gilmar Mendes afirmou ter certeza de que Joesley gravou uma conversa entre ambos no início de abril. Existe ainda o áudio de um encontro com o ex-ministro José Eduardo Cardozo – a quem Saud atribui, na conversa gravada, poderes sobrenaturais: controlar cinco ministros do STF, manter relações íntimas com a ex-presidente Dilma Rousseff, com a presidente do STF, Cármen Lúcia, com a advogada Fernanda Tórtima e sabe-se lá mais o quê. O próprio Saud pediu desculpas a todos e reconheceu tratar-se de bravatas.


Noutros tempos, o cacique Juruna andava com um gravador dependurado no pescoço pelo Congresso Nacional. Todos sabiam que poderiam pagar um preço alto por palavras ditas perto dele. Joesley, transformado numa espécie de grampeador-geral da República, já não sabia mais o que gravava, tamanho o desleixo demonstrado ao guardar no bolso um gravador que Saud nem sabia dizer se estava ligado. Paga o preço pelas próprias palavras.


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