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terça-feira, janeiro 19, 2021
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Cineasta carioca afirma que nunca viu nada suspeito em 5 anos de filmagens de João de Deus

RIO — O escritor Caio Fernando Abreu, a cantora Marina Lima e o médium João de Deus despertaram a atenção do cineasta Candé Salles, de 42 anos, por motivos diferentes, mas com intensidades semelhantes. Caio, obsessão do diretor na adolescência, tornou-se tema de “Para sempre teu Caio F.”, seu primeiro filme, lançado em 2014. Marina, a amiga que virou namorada, está no documentário “Uma garota chamada Marina”, com produção de Letícia Monte e Lula Buarque, e estreia prevista para o fim de abril.

Já o médium João, acusado de abuso sexual por mais de cem mulheres, foi objeto de estudo de Candé durante cinco anos e resultou no filme “João de Deus: o silêncio é uma prece”, um ano antes de as denúncias virem à tona.

— Em nenhum momento vi nada que me fizesse suspeitar dele. A narrativa do filme era sobre o processo de cura, não sobre o homem — diz Candé.

Visivelmente emocionado, o cineasta recebeu O GLOBO em seu apartamento, em São Conrado, Zona Sul do Rio.

Qual o maior desafio ao documentar um personagem?

É mais fácil falar de quem já faleceu do que de quem está vivo, pois a história ficou para trás. Não é mutável. Veja o que aconteceu com João…

Nunca presenciou algo que indicasse que ele abusava de mulheres?

Passei cinco anos indo à Casa de Dom Inácio ( nome do centro espírita onde João de Deus atendia ). Nunca vi nada que me deixasse em alerta, duvidoso ou desconfortável. Não seguiria meu trabalho se testemunhasse condutas que condeno.

Por que se interessou em retratar João de Deus?

Quando terminei o filme do Caio, buscava outro personagem forte. Um amigo me falou muito sobre João e os processos de cura que aconteciam em Abadiânia. Dei um Google, vi que a BBC, a Oprah e diretores da Alemanha e da França já tinham ido lá. Achei curioso que um senhor de uma cidadezinha fizesse operações físicas, sem anestesia, tirasse pessoas desenganadas da cadeira de rodas. Decidi ir lá. Quando cheguei, entendi: era um hospital espiritual. Uma meditação coletiva com um poder de cura absurdo. Tentei me conectar com a luz e pedi que me tirasse a vontade de beber e usar drogas.

Que drogas você usava?

Não me drogava nem bebia a ponto de ter problemas sérios. Mas usava ecstasy e ácido quase todo fim de semana, o que prejudicava meu rendimento. Vários amigos me falavam o quanto isso era ruim. O Caetano ( Veloso ) me disse: “Nossa, você era tão chato quando bebia. Que bom que parou.”

Ele acredita em João de Deus?

Caetano não acreditava no médium, mas no bem que ele me fez (emociona-se ). Mudei tanto que vários amigos começaram a querer ir para Abadiânia. Levei atores, cantores, diretores, médicos, psicólogos (entre eles, as atrizes Camila Pitanga e Suzana Pires ).

Sente culpa?

Não sinto culpa. Num documentário de 1h20m você tem que escolher uma narrativa. Filmei o sobrenatural, não o homem. Vi gente desenganada ser curada. Me vi rezando e pensando que é importante dar amor ao outro. Antes de ir para lá, eu não pensava nisso. Vivia no mundo do glamour, do ego. Queria ir para uma festa dançar com a Kate Moss. Ali isso não importa. Importam a cura e o amor.

Em nenhum momento pensou em investigar a vida dele?

Não. Descobri as denúncias pelo jornal. Não fechavam com o homem que conheci. Eram muitos: o médium caridoso, o bronco que não sabe ler, as entidades que incorpora, o trabalhador…

O coronel que tem armas e dinheiro guardado…

Se Seu João cometeu atrocidades, vai ter que pagar. Condeno a violência contra a mulher. Não entendo nem admiro o macho que tem licença para perpetuar a violência, mas é impedido de chorar. Sempre fui um homem sensível. Quem me conhece sabe.

Você não sabia nem que ele tinha uma filha que o acusava?

Não. Nunca. Meu norte era o processo de cura. Repito, filmei o sobrenatural, não o homem. Não tenho culpa nem vergonha do filme que eu fiz. Registrei o que importava naquele momento: a cura.

Faria “João de Deus 2”?

Agora é esperar. Dependendo do que acontecer, pode valer um segundo filme.

O que você fez quando soube das acusações?

Chorei, chorei… e liguei para ele, que disse: “Não lembro de nada, meu filho, não conheço essas mulheres”. Ele chamava todo mundo de filho. As pessoas tinham com ele uma relação de pai.

Inclusive a coreógrafa holandesa Zahira Lieneke, assistente que o denunciou?

Não sei, eu nunca a vi lá. Cada hora ele escolhia um assistente. Não havia cargos fixos.

Como você ficou nos dias que se seguiram às denúncias?

Todo mundo me procurou. Amigos, BBC, CNN. E eu sumi. Fiquei muito triste. Só chorava. Peguei minha namorada ( a diretora Joana Mariani, que, no dia desta entrevista, lhe enviou um buquê de orquídeas com um cartão de “Happy Valentine’s Day” ) e fui viajar com ela. Estamos juntos há cinco meses, mas nos conhecemos há anos. Ela me ajudou demais.

E a Marina Lima, sua ex? Como a conheceu?

Há 20 anos, numa festa. Eu estava chegando, ela saindo, e eu disse: “Como você vai embora? Queria te conhecer.” Ela me olhou estranho e falou: “Tá bem, vamos conversar.” Nascia uma amizade que durou anos. Até que, um dia, quando eu e ela sofríamos por amor, resolvemos namorar. Foi bom demais. A admiração que tínhamos um pelo outro e o companheirismo eram tão fortes que acabamos namorando. Achamos que era amor de homem e mulher, mas não. Era de família.

O que você revela sobre ela no filme que pouca gente sabe?

Quando morávamos juntos, na Lagoa, ela já tinha saído da depressão, e estava animadíssima gravando um disco, ensaiando um show em Porto Alegre, com direção do Isay Weinfeld e várias outras coisas. Pensei: “Cara, vou filmar isso.” Liguei a câmera e registrei todo esse processo. O filme se passa no Rio, em Porto Alegre e em Berlim, para onde viajamos juntos. Ela fez até uma música para mim (“Partiu”) porque a gente falava: “Partiu, Berlim?” Filmei o aniversário dela, a decisão de se mudar para São Paulo. É uma Marina íntima, conversando com a câmera. Aproveitava que ela queria me contar as coisas e ligava a câmera. Depois fiz uma entrevista em estúdio que costurava tudo isso.

O que a Marina tem que apaixona tanto os homens quanto as mulheres?

A verdade. Ela pula de coração no que sente. Por isso, viveu nosso amor e tantos outros sem preconceito. Depois da minha mãe e da minha irmã gêmea, a Marina é a mulher mais importante da minha vida.

Você também gosta de homens e mulheres?

Sim. Meu coração não escolhe as pessoas pelo gênero.

Ano passado, nesta época do ano, você esteve com o João de Deus em um camarote da Sapucaí. Ele curtia carnaval?

Não. A esposa dele, que é mais jovem, é que gostava. Ele ia por ela. Ficava sempre quieto na frisa. Aguentava umas duas horas e metia o pé.

Tem vontade de visitá-lo?

Tenho. Quero perguntar um monte de coisas para ele. Mas quero mesmo que a justiça seja feita.

Sobre quem será seu próximo documentário?

Seu Jorge. Mas ainda não posso falar muita coisa.

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