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terça-feira, maio 11, 2021
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Em livro, jornalista indica que canibais devoraram Michael Rockefeller

Em meados de novembro, John Chau, missionário norte-americano de 27 anos, foi morto provavelmente por flechadas assim que chegou a Sentinela do Norte, no arquipélago indiano de Andaman e Nicobar. A ideia do jovem era levar sua religião para os habitantes de Sentinela, que formam uma das tribos mais isoladas do mundo, tanto que o acesso à ilha é proibido para proteger tanto eventuais curiosos e intrometidos quanto os humanos que ali habitam.

Histórias de aventureiros que buscam contato com povos isolados e acabam se dando mal existem aos montes por aí. Oportunamente, uma delas é contada num livro que estava aqui na minha pilha para leituras imediatas.Em “Colheita Selvagem”, publicado originalmente em 2014 e editado no Brasil há alguns meses pela Record, o jornalista Carl Hoffman tenta refazer os caminhos que, em 1961, levaram Michael Rockefeller à morte na então Nova Guiné Holandesa, território que hoje é província da Indonésia.

Michael era bisneto do homem mais rico do mundo e filho de Nelson Rockefeller, então governador de Nova York e colecionador de arte primitiva. Para desbravar o mundo e também impressionar o pai, assim que deixou a faculdade de Harvard o jovem saiu em busca de peças para incrementar a coleção. Foi parar próximo ao vilarejo de Otsjanep, em Asmat, um dos lugares mais remotos da Nova Guiné Holandesa.

Garoto mimado, Michael tinha certeza de que poderia comprar absolutamente tudo o que quisesse com os seus dólares, até mesmo objetos sagrados para certas tribos. Também achava que nenhum imprevisto poderia abalar sua jornada. Errou. Em sua viagem derradeira, o barco no qual estava não resistiu ao mar revolto e Michael foi à água. Essa é a última notícia que temos do rapaz. Tanto o corpo quanto vestígios do caçador de relíquias jamais foram encontrados. A causa oficial de sua morte é afogamento.

No entanto, a hipótese do Rockefeller ter alcançado a ilha nunca foi descartada, e é com ela que o autor de “Colheita Selvagem” trabalha quando decide investigar os últimos dias de Michael. Experiente repórter de viagens, Hoffman vasculha papeladas na Holanda e vai para Asmat, onde encontra um povo que nutre a memória coletiva e tem grande talento para contar histórias. Ouvindo o que diziam sobre o norte-americano, nota que o desaparecimento de Michael ainda é um tema que amedronta a tribo asmat.

Isolados do resto do mundo, os asmat não levavam uma vida muito diferente dos humanos que habitaram a Terra há dezenas de milhares de anos. As coisas só começaram a mudar na primeira metade do século 20, quando colonizadores por lá chegaram e encontraram gente afeita a práticas já pouco ortodoxas. Em Asmat sempre houve pouca comida. Grandes animais não habitam a região, onde grandes técnicas de cultivo nunca foram desenvolvidas. Uma das fontes mais nutritivas que os locais tinham para suprir a necessidade de proteína eram os humanos de tribos inimigas.

A prática tardia do canibalismo fez a fama dos asmat. E se Hoffman não encontrou provas cabais, achou fortíssimos indícios que corroboram uma tese que sempre rondou o desaparecimento de Michael: de que o jovem virou comida para os nativos. Não um mero banquete, contudo, mas o alimento central em um ritual sagrado, feito para tentar reordenar os espíritos que tinham sido bagunçados pela carnificina há pouco protagonizada pelos colonizadores invasores, explica o autor – oportunamente, o livro também discorre sobre o choque entre civilizações e manipulações por conta de interesses políticos. Baseando-se nas pesquisas sobre o ritual, Hoffman imagina como deve ter sido o final do Rockefeller – não recomendo a leitura a seguir para os mais sensíveis:

“Michael estava imóvel, gravemente ferido, com sangue saindo pela boca e manchando a barba molhada. Fin, Pep e Ajim ergueram seu peito, empurraram sua cabeça para frente e, com um golpe de machado na parte de trás do pescoço, Michael Rockefeller estava morto. Ajim o virou e cravou uma faca de bambu em sua garganta, empurrando sua cabeça para trás até que a vértebra cedesse. Homem, porco, era tudo o mesmo agora – Michael era carne sagrada. Enquanto os outros reuniam galhos mortos da floresta e os acendiam com brasas da canoa, Fin fez um corte profundo do ânus de Michael até o pescoço, da lateral do tronco até a axila, através da clavícula até a garganta e descendo pelo outro lado, exatamente como seus ancestrais o haviam ensinado a destrinchar um homem. Havia sangue por toda parte, encharcando suas mãos, cobrindo seus braços e respingando em suas pernas. Também havia moscas, zunindo e revoando aos milhares.

“Fin quebrou as costelas de Michael com um machado, colocou a mão sob o esterno, soltou o osso e colocou de lado. Ajim torceu as pernas e os braços, decepou-os e então retirou as entranhas com um puxão vigoroso. Cinquenta vozes cantaram em uníssono, em um ritmo poderoso e terroso que poderia ser o próprio pulsar da lama e das árvores. Era violência sagrada. O fogo estalava, fumegante e quente, e os pedaços de carne foram colocados para assar. Quando ficaram prontos, eles retiraram as pernas e os braços tostados do fogo, separaram a carne dos ossos e misturaram com sagu farelento e branco-acinzentado, em longos espetos para todos comerem […].

“Ajim cortou um buraco de uns 5 centímetros de diâmetro na têmpora direita de Michael, usando um machado. O objeto tinha nome, um novo nome. Chamava-se Mike agora. Eles sacudiram a cabeça até que o cérebro escorresse para a folha de uma palmeira, rasparam o interior do crânio com uma faca para pegar todos os pedaços, misturaram com sagu, enrolaram a folha e assaram no fogo. Essa comida era especial. Apenas Pep, Fin, Ajim e Dombai, o mais idoso presente, comeriam dela. Tinha um sabor rico. Era difícil se sentir saciado em Asmat, mas todos estavam satisfeitos. Finalmente podiam descansar e dormir sem medo. Enrolaram o crânio em folhas de bananeira, guardaram-no na canoa de Fin e remaram para casa”.

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