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sexta-feira, abril 23, 2021
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ÁS DE ESPADA (CRÔNICA)

* Por Amadeu Roberto Garrido de Paula.

Feliz no dinheiro e malsinado no amor, como sempre expressaram as cartas, vivi enredado num dilema: o que mais deseja o ser humano? Sei que jocosos caretas dirão que ambos os bens não se excluem. 

Sempre lembrei que, nascido abaixo da linha da pobreza, neste Brasil no início da década de 1950, como não poderia deixar de ser, endeusei o dinheiro, balizado, porém, pelas normas éticas graníticas de uma espanhola da Andaluzia: minha mãe, pessoa simples, poetisa nata, incapaz de expressar em linguagem o fundo de seus sentimentos, por carência de educação formal, professora frustrada pela mesma razão,  minha “alma máter”. Nada contra meu saudoso pai, em nada diferente dos milhares trabalhadores da construção civil; que o mundo da eternidade ou das saudades lhes seja um corredor branço e limpo, margeado por amoras, que se afunila mensamente até uma luz inebriante. 

Jamais conformei-me, porém, com as cartomantes que reiteravam meu diagnóstico cósmico: terá dinheiro e não terá amor. Este somente será o da alma ou do espírito, na melhor das hipóteses, o que não é de se desprezar. 

A previsão das gitanas se cumpriu sem tirar nem pôr. Não temo em dizer que acumulei algum dinheiro, porque não me preocupa nenhuma possibilidade de perdê-lo. Não o entregarei constrangido, num sequestro tupiniquim – aviso aos nevagantes – porque o constrangimento, insulto à liberdade do homem – esbarrará em meu cadáver. Homem sem liberdade é metade e considero a vida e a liberdade em iguais condições de valor. 

Há um grande vazio a atormentar-me sem o amor de uma mulher inteiramente percebida em minha infância: a face, os cabelos, a altura, e, mais importante que tudo isso, a imensa ternura disposta a ser entregue ao homem que escolhe. Não se aproximaria dele sem essa ternura – isso seria uma aberração natural e a conversão da mulher numa oportunista. A mulher de meus passos frágeis era aquela capaz de ser Julieta. 

Também sempre tive uma ideia do Romeu, capaz de dar a uma mulher igual ternura, em todos os momentos de sua vida. Obviamente, não conhecia o bardo, mas ele pulsava em minhas veias. Em minha imaginação infantil, ambos os protagonistas da tragédia eram belos, simétricos nos limites da simetria possível, esperançosos, generosos e cultivadores da alegria. 

Ignoro se, crescido, recebendo na face descoberta os arranhões do forte vento contrário, primei por manter por essas características virtuosas, ou fui degenerado como ser pela sociedade que nos transmuda – em geral para um tipo defensivo despossuído daquelas pecualiaridades dos infantes.        

Creio que muitos dos leitores e leitoras, em suas infâncias, ao olhar os adultos, imeditamente tinham certeza se eles eram bons ou maus – que me perdõem o maniqueísmo. Essa intuição certeira se pede com o passar dos anos. Uma das virtudes da infância que o desenvolvimento da vida de confrontos se encarrega de pulverizar.                 

O efeito está em que adquiri a certeza de que o dinheiro fabrica o amor, como se fosse um chiclete. Mas nada, nem esse poderoso instrumento de Midas, reverencido pelo orbe e que provoca suas guerras, guerrilhas e atentados torpes, gera o sentimento profundo do querer granítico. Este vem de tempos anteriores à mitologia,  é tranferido pelo sangue, único elemento uniforme que desafia biologicamente a relatividade do tempo, que se forma como um plasma denso admirado por todos os Deuses dos Deuses, pelo Alcorão, pela sabedoria simples presente em todas as metáforas de Jesus, pelas meditações de Buda e todas as manifestações metafísicas, empregado o termo em seu sentido de superioridade ao puramente físico e cotidiano.  

Forra-me a percepção de que assim seria e serei. Porém, sempre que um raio de sol reverbere sobre a Humanidade, Heráclito poderá fazer das suas. O rio não será o mesmo e o homem pensativo às suas margens também será outro. E as damas de vestidos longos, injustamente temidas pela habilidade de furtar, continuarão a tirar minhas cartas. Um rei de ouros e, quiçá ainda, uma espadilha. 

* Amadeu Roberto Garrido de Paula é poeta e autor do livro “Universo Invisível”. Advogado e membro da Academia Latino-Americana de Ciências Humanas.  

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