Levantamento do programa EcoAm identificou 25 empreendimentos ativos e aponta oportunidades em cadeias como café, cacau, castanha, mel, pescado, cosméticos naturais e turismo comunitário
Localizado na região central de Rondônia, o município de Ji-Paraná apresenta um cenário promissor para o desenvolvimento da bioeconomia. Um mapeamento realizado pelo programa EcoAm identificou pelo menos 20 cadeias produtivas e espaços de produção no território, além de 25 empreendimentos em atividade.
Os dados fazem parte da pesquisa “Bioeconomia e Territórios da Amazônia”, que analisou as potencialidades econômicas e ambientais do município. Entre as atividades encontradas estão agricultura familiar diversificada, produção de café e cacau, apicultura, piscicultura, produtos artesanais e turismo rural e comunitário.
O levantamento aponta Ji-Paraná como um território onde o crescimento urbano e as atividades econômicas tradicionais convivem com iniciativas que buscam gerar renda por meio do aproveitamento sustentável dos recursos naturais.
Entre as cadeias consideradas promissoras estão o café amazônico, cacau fino e nativo, castanha-do-brasil, mel e apicultura cooperada, pescado e piscicultura, além da fabricação artesanal de sabão e cosméticos naturais e das atividades ligadas ao turismo comunitário.
Agricultura familiar ganha espaço
A pesquisa também destaca a participação de agricultores familiares, cooperativas lideradas por mulheres, associações de ribeirinhos e comunidades indígenas no desenvolvimento desse novo modelo econômico.
Entre os empreendimentos citados no levantamento estão Cacau Raiz, Chocolates Jaru, Toque Amazônico, Loja da Floresta e a Cooperativa de Produtores de Leite e Agrícola.
Idealizadora da Cacau Raiz, Melissa Almeida conta que criou a empresa há oito anos e encontrou no empreendimento uma maneira de conciliar maternidade e trabalho.
“Nós somos uma empresa agroecológica, onde a gente faz todos os processos, desde plantar o próprio cacau até o produto final. E a gente trabalha de forma agroecológica, então nossas embalagens são biodegradáveis e todos os nossos parceiros também são sustentáveis”, afirmou.
Segundo Melissa, a empresa também procura fortalecer a participação das mulheres na agricultura familiar, adquirindo cacau, frutas e outros produtos fornecidos por produtoras rurais.
“Eu tenho fornecedora de cacau, fornecedoras de frutas. Hoje a gente apoia muito e incentiva a agricultura familiar. Temos desafios na questão da logística, de abrir vendas, mas graças a Deus as coisas estão caminhando”, acrescentou.
Crédito e burocracia ainda são desafios
Apesar das oportunidades identificadas, o estudo aponta obstáculos para pequenos produtores e empreendedores, especialmente dificuldades de acesso ao crédito, burocracia e problemas de logística e comercialização.
Segundo o levantamento, a falta de oportunidades também contribui para a saída de jovens do município em busca de alternativas profissionais em outras localidades.
Por outro lado, Ji-Paraná possui uma rede de instituições que pode contribuir para o fortalecimento dessas atividades. A pesquisa identificou pelo menos 22 instituições atuando no apoio a iniciativas locais.
Entre elas estão a Universidade Federal de Rondônia (Unir), por meio de programas de extensão junto a cooperativas, além do Sebrae, da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Popular e Economia Solidária (Unicafes-RO) e do Programa de Educação do Cooperativismo Solidário (Pecsol).
O levantamento também cita linhas e programas de financiamento que podem contribuir para novos investimentos, entre eles Pronampe, Pronaf Bioeconomia e Fundo Constitucional de Financiamento do Norte (FNO).
Potencial para novos negócios
Para o gerente do programa EcoAm, Washington Silva, Ji-Paraná reúne condições importantes para ampliar os negócios ligados à bioeconomia.
“Apesar de estar no arco do desmatamento, a região de Ji-Paraná tem grandes áreas preservadas e uma organização cooperativa exemplar. Trabalhar a agricultura familiar, sistemas agroflorestais e a estruturação de cadeias fortes na região, como a castanha e o cacau, são estratégias de desenvolvimento da bioeconomia”, afirmou.
Segundo Washington, a região também apresenta forte vocação empreendedora e pode utilizar essa característica para estimular novos negócios sustentáveis.
“Possui um potencial empreendedor enorme. Pois muitos negócios do agronegócio surgem dali. Queremos contribuir para que os negócios da bioeconomia surjam também”, completou.
Programa já destinou R$ 1 milhão para negócios da Amazônia
O relatório “Bioeconomia e Territórios da Amazônia” foi desenvolvido pelo Programa EcoAm, em atividade desde 2024 e executado pelo Impact Hub Manaus em parceria com o BID Lab, laboratório de inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento, por meio do Programa Amazônia Sempre, além do Instituto Meraki, Fundo Vale e Sebrae Amazonas.
O projeto piloto selecionou Ji-Paraná, em Rondônia; Rio Branco, no Acre; e Tefé, no Amazonas. A iniciativa também está em expansão para Tabatinga, no Amazonas, e Marabá, no Pará.
De acordo com os responsáveis pelo programa, 17 negócios ligados à bioeconomia na Amazônia já foram apoiados e R$ 1 milhão foi destinado a investimentos por meio de duas edições do programa de aceleração Lab de Impacto.
O levantamento reforça que, embora existam desafios relacionados ao crédito, à burocracia e à estruturação das cadeias produtivas, Ji-Paraná possui diversidade de produção, iniciativas locais e uma rede de apoio capazes de ampliar a participação da bioeconomia na geração de emprego e renda em Rondônia.



