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Porque o voto impresso é a alegria da milícia?

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O voto impresso voltou a ser realidade no país. Estamos em Rio das Pedras, no estado do Rio, onde em instantes as urnas serão abertas e as cédulas, contabilizadas. Antes porém, vamos apresentar nossos personagens. Todos fictícios. O candidato a prefeito é o Queirozinho (repito, os personagens são 100% fictícios) que concorre pelo PPB (Partido Patriota do Bem) com o lema “Deus, Pátria, Família e Gatonet”, afinal a gente não quer só comida, a gente quer diversão e arte. Para garantir a lisura da apuração, o partido de Queirozinho tem como fiscais da apuração Tião Tripa, Pão com Ovo, Meleca e Dedo Nervoso.

Rio das Pedras ainda é um bairro dominado pela milícia e o candidato Queirozinho vai vencer com 100% dos votos. “Ué?” , pergunta o leitor perplexo. “Como você sabe quem vai ganhar, se as urnas não foram abertas?”. Desde que as urnas eletrônicas passaram a adotar o voto impresso como “auditagem”, tornou-se possível saber com antecedência quem sairá vencedor em áreas do neocoronelismo, onde o crime organizado mantém o domínio territorial.

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Aqui ficção e realidade começam a se misturar. O processo de apuração de cédulas impressas, seja na era do voto papel, seja como comprovante da urna eletrônica, é rigorosamente o mesmo.

Queirozinho corria o risco de perder a eleição para Capeta, o Vermelho, um candidato anti-milícia. E sonhou em desmoralizar o processo eleitoral. Era fácil. Pão com Ovo recrutou cinco eleitores de diferentes seções eleitorais e deu a missão. Eles apertavam o número do Capeta e a impressora, corretamente, confirmava o voto. Mas, como combinado, eles berravam que tinham votado no Queirozinho, e o voto impresso estava saindo em nome de Capeta. Faziam um vídeo para viralizar nas redes sociais, denunciando a “fraude”. Se Capeta ganhasse, eles já tinham o pretexto para conclamar os patriotas do bem a sair às ruas e virar a mesa.

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Plano 2

 

Era vez do Tião Tripa entrar em ação. Como quem não quer nada, ele conversava com moradores de Rio das Pedras: “Vai votar no Queirozinho, mesmo? Olha lá, hein! Esse voto impresso é o maior cagueta. Dá o serviço mesmo. Eu vou lá na apuração conferir se você deu migué ou é parça”, falava em tom de brincadeira. Só que em Rio das Pedras, todo mundo sabia que Tião Tripa não brincava. Matava. Para quem não entendeu a fala poética de Tião Tripa, ele estava dizendo aos eleitores que, com a impressão da cédula e com a apuração sendo realizada em Rio das Pedras, era possível rastrear o voto de cada um. Por via das dúvidas, era melhor não pagar para ver.

Plano 3

 

Agora é com Meleca. Ele fora designado delegado do PPB para acompanhar a apuração. Sua missão era ficar de olho na junta de apuração. O processo era o mesmo de quando não existia a urna eletrônica. Um apurador lia em voz alta o voto (por isso era chamado de vogal) enquanto um segundo preenchia o mapa de votação. Fazia um risquinho ao lado do nome do candidato.

Acontece que instantes antes da apuração, Dedo Nervoso conversara com o vogal. Ele só poderia ler Queirozinho. Funcionava assim: voto em branco, o vogal gritava “Queirozinho”; voto nulo, ele berrava “Queirozinho”; voto em Camarão e ele exclamava… “Queirozinho”. O rapaz do mapa da apuração também havia sido aconselhado a preencher corretamente o mapa de apuração, sempre em nome de Queirozinho.

É bem verdade que havia fiscais ao redor da mesa para ver se tudo estava funcionando bem. Mas curiosamente, ninguém tinha a coragem de denunciar o que estava ocorrendo. É que Tião Tripa, Pão com Ovo, Meleca e Dedo Nervoso estavam tão felizes e controlando o recinto com tanto prazer que não era de bom tom contrariá-los.

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