Dados do Detran apontam aumento de infrações e especialistas alertam para riscos da distração no trânsito
“Quando voltei a atenção para o trânsito, já estava em cima de um buraco. Tentei desviar e depois disso tudo apagou.” A lembrança ainda é viva para o motorista de aplicativo Manoel Dutra, de 34 anos. Bastaram poucos segundos e uma rápida olhada no celular para mudar completamente sua vida. O carro bateu contra um muro. O impacto causou fratura na perna, no braço e na clavícula. Manoel só voltou a abrir os olhos quatro dias depois, já internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
“Acordei quatro dias depois na UTI. Foi ali que percebi como um segundo de distração pode mudar tudo”, afirma.
O relato de Manoel representa uma realidade que se repete diariamente nas ruas e rodovias brasileiras. Durante o movimento Maio Amarelo, o alerta sobre o uso do celular ao volante ganha ainda mais destaque. O hábito de checar mensagens, notificações e redes sociais enquanto dirige se tornou comum, mas também perigoso. Atualmente, o uso do aparelho já aparece entre as principais causas de acidentes de trânsito no país, comprometendo a segurança de motoristas, passageiros e pedestres.
Em Rondônia, os números também preocupam. Dados do Departamento Estadual de Trânsito de Rondônia (Detran-RO) mostram milhares de autuações relacionadas ao uso de celular ao volante nos últimos anos. Apenas em 2025, o estado registrou aumento nas infrações ligadas à distração no trânsito, especialmente em cidades como Porto Velho, Ji-Paraná e Ariquemes, onde o fluxo de veículos cresce a cada ano. Nas rodovias federais que cortam Rondônia, a Polícia Rodoviária Federal também intensificou a fiscalização durante o Maio Amarelo.
Segundo especialistas, o comportamento está diretamente ligado à dependência digital e à necessidade constante de conexão. Para o professor da Estácio e psicólogo Ruy Cruz, a relação cotidiana com o aparelho ajuda a explicar por que é tão difícil resistir àquela rápida olhada na tela.
“O celular ultrapassou a função de comunicação. Hoje ele conecta as pessoas às redes sociais e a um ambiente que estimula prazeres imediatos e instantâneos. Existe também o medo de estar perdendo alguma informação importante enquanto estamos longe do aparelho”, explica.
De acordo com o psicólogo, o celular passou a ocupar um espaço emocional e psicológico na rotina das pessoas. “Costumo comparar o celular a uma chupeta eletrônica, porque ele nos aproxima de quem está distante e nos afasta de quem está perto. No trânsito isso se torna ainda mais perigoso, porque o motorista perde a noção do risco e acredita que consegue controlar tudo ao mesmo tempo”, afirma.
Ele destaca ainda que cada notificação, curtida ou mensagem recebida provoca uma descarga de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer e recompensa. “Na prática, o cérebro entende aquela notificação como algo mais imediato e prazeroso do que um risco que parece distante, como um acidente”, explica.
Esse comportamento está relacionado também ao chamado Fear of Missing Out (FOMO), expressão usada para definir a ansiedade causada pelo medo de estar perdendo alguma informação importante. “A ansiedade gera desconforto e olhar rapidamente o celular traz um alívio momentâneo. O problema é que isso reduz completamente a atenção aos riscos do trânsito”, alerta.
Infração gravíssima
De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, manusear o celular ao volante é considerado infração gravíssima. A penalidade prevê multa de R$ 293,47 e sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
A legislação também alerta que o uso de recursos como Bluetooth, fones de ouvido ou outras formas de interação com o aparelho podem comprometer a atenção do motorista e aumentar o tempo de reação diante de situações de risco.
Para reduzir esse comportamento, o psicólogo defende que o primeiro passo é desenvolver autocontrole e consciência sobre os próprios hábitos digitais. “Muitas vezes, o impulso de verificar o celular revela sinais de ansiedade, dependência emocional e dificuldade de concentração. Reconhecer isso é fundamental para mudar esse comportamento e preservar vidas”, conclui.
Na prática, ele recomenda medidas simples, como silenciar notificações antes de dirigir e adotar um “detox digital” durante os deslocamentos. “Toda mensagem enviada ou notícia veiculada pode ser vista depois. O importante é preservar a vida”, reforça.

